Nos dias de hoje, penso sempre muito sobre o que somos capazes. Ainda sobre o dicionário de silêncios, estou num ônibus voltando pra minha rotina paulistana. Cinco horas de viagem… acreditem: viajaria mais horas pra rever estas pessoas. Mesmo que por um breve meio final de semana.

Mas, o que não interessa e irei citar está acontecendo exatamente no ônibus. Eu me considero uma pessoa chata às vezes. Tive uma educação metódica e gosto que respeitem sobretudo o meu espaço.

Na minha infância meu irmão e eu dormiamos no mesmo quarto. Meu pai sempre evidenciava o respeito pelo silêncio ou escuro enquanto o outro dormia. E cresci assim, dentre outros costumes.

Agora, no ônibus, estou sentado ao lado de um desconhecido que viaja junto com uns seis amigos. Estes, agora, se levantaram dos seus lugares espalhados pela condução, e conversam sem respeito aos quase quarenta demais passageiros.

Mas agora, preciso muito falar sobre o braço da poltrona. Há apenas um que nos separa e delimita nossos espaços. Eu concordo com um respeito entre dividir o apoio, ora um e ora outro, ou se for o caso, cede-lo a quem for – desde que meu espaço continue sendo respeitado. Mas não houve. Além de apoiar o braço, o homem teve a mínima importância e o ultrapassou pro meu lado, consideravelmente e intermitavelmente durante todo o percurso, que ainda não se finalizou. Me incomodando profundamente durante estas horas.

Durante um certo momento, eu consegui apoiar o meu braço, pra amenizar o incômodo das articulações. Mas o ato durou pouco, pois ele encostava o seu sobre o meu, me deixando extremamente incomodado com o contato de peles, suando rapidamente, o que não o parecia incomodar.

Antes de tudo, ele estava sentado no meu lugar – na janela, e saiu assim que cheguei e informei que aquele lugar era meu. No apoio de garrafas e copos ao lado do banco, havia uma cerveja. Eu peguei e perguntei se era dele, que negou, tirei e coloquei no chão para poder por a minha garrafa. Logo depois o motorista veio até perto pra trocar o lugar de uma garota, que estava com problemas. Os amigos levantaram com outras latinhas em mãos. Agora, bebem algo envolvido numas sacolas.

Tudo bem beber.

Mas essa decisão deve envolver apenas quem bebe. Talvez os demais passageiros queressem dormir ao invéz de contemplar uma festa em pleno ônibus intermunicipal.

Me coloco a seguinte dúvida: ou ele não notou o ato, nem os amigos, ou notaram e continuaram mesmo assim.

E ao pensar sobre – tente fazer o mesmo, não sei o que é pior.

Fazer sem saber que é um ato que incomoda

ou

Fazer sabendo que está incomodando

Preciso falar da poesia constante da chuva por estes dias, mas em breve, agora não consigo pensar em mais nada.

Igor Florim