Fui abduzido em 1797 e atualmente frequento o século XXI. Neste há uma eloquência em se manter nos eixos: o equilíbrio das manhãs, a serenidade nas vitórias, a perda no almoço, o conhecimento das tardes e o suspiro infindo das noites.

Tem sido difícil viver com os meus sonhos se realizando. Eu quem esfreguei a lâmpada com meus próprios lábios e agora que o gênio trouxe tudo pra minha realidade, eu tenho medo. Medo de não saber enfrentar, medo de assumir, medo de ser gente adulta.

Corri para a mansão dos vizinhos, na porta, ainda antes de entrar, vi um grupo daquela espécie reunida – alguns com seus alargadores e outros sem roupa. Decidi entrar – que frio. Mas o bom daquela casa, é que havia muito aconchego: cobertores, lareira, madeira no chão, poltronas confortáveis e muitos quartos enormes.

Fui indo mais a fundo, como sempre faço. E encontrei esconderijos! – algumas paredes escondiam portas invisiveis/ guarda-roupas que levavam à closets secretos ou banheiros aconchegantes que vou nomear como salas de banho/ sótão cheio de informações / porão tão bem construido que é possível morar apenas lá, sem precisar do resto da casa.

Tudo perfeito como eu sempre imaginei. Porém, quando pensei na perfeição do que eu havia imaginado (ou pedido pro gênio da lâmpada, entenda como quiser), me lembrei que meus vizinhos (que nessa altura já eram meus amigos) estavam lá fora, no portão. Sai correndo para vê-los e não encontrei ninguém.

Tudo estava cinza. Não tinha nada na entrada da casa, as plantas sumiram, os carros da garagem se foram (“Pai, eu vi todos os carros na garagem, mas, aqui eu não vejo ninguém”). São Paulo estava num dia de inverno e chuva. Meus amigos não me esperaram, e o mais difícil estava por vir: sair da casa. Sair sozinho, e quando não só, eu teria por perto uma matilha de lobos que não sei lidar.

Pronto. Sentimento atroz. O futuro chegou e não sei como enfrentar… e nessa versão da vida, eu não iria mais me lembrar do passado, só as mensagens de texto que viriam de longos anos luz poderiam me trazer conforto e uma vaga lembrança.

Esqueci tudo o que eu ia escrever e acordei, sem estar pronto pro novo dia. Talvez eu devesse ter ficado dentro da casa, mas se eu não saísse, não teria tido a oportunidade de me permitir e tentar. Eu poderia ter encontrado flores do lado de fora e não os lobos… ou talvez, seja um castigo do gênio… não sei se devo colocar a boca pra falar. Preciso pensar – sem falar.

E o sábado a noite sem nem começar, quase acabou.

PS: Finalmente a janela está aberta, e em breve (no feriado do dia das criança, que ironia), voltarei um pouco pro meu passado, pra ser mais forte agora que cheguei no futuro. Talvez as respostas estejam por onde andei. Ledo engano: na verdade o medo nunca existiu.

Igor Florim