Tudo aquilo acabaria. Nenhum vestígio de mim continuaria existente para contar aquelas histórias. Se ninguém vive pra contar, é porque tudo morreu. Não só as pessoas mas as cenas, os sentimentos, os lugares, as poesias e as notas, o violão e a barba, o sorvete, o restaurante e o cinema.

Eu acreditei num tempo onde eu não iria mais dormir até tudo existir. E hoje, tudo foi apagado da memória… todo um tempo. Sendo assim, a correspondência acabou e quando só existe remetente, vira monólogo e o diálogo retorna para dentro da caixa.

Sobre idealizar algo vivo, enxergar algo bom e sentir algo puro. A inocência da menor idade. O riso caótico, o pedido de desculpas – mais uma vez uma lembrança me atravessa.

Um pássaro azul pousou no meu coração e me disse que algumas pessoas não vão permanecer na minha vida pra sempre. E antes de decolar, semitonou baixinho – “o que não significa que não permanecerão com você.”

Chorei. Respirei bem fundo e olhei pra dentro, depois de ver todo o mundo passar sobre meus olhos (enquanto eu estava caído no chão de um pequeno teatro junto de uma lua dos afogados, com uma leve valsinha de Chico). Lá dentro entendi que o vazio é possibilidade, e que durante essa queda, o tempo havia parado só pra eu me entender e enxergar as coisas que meus olhos conseguem ver. E segui. Para sempre. Doia, mas tudo continuou vivo. Todo o sentimento.

Mesmo sendo apenas lembranças…

O dia amanheceu, em paz.

Igor Florim