O dia ficou calmo. A paz de quem senta para esperar o trem e apenas respira. Ter alguns quilos a menos nas costas me traz um alívio que não tem preço. Venho pensando nas coisas que esquecemos! Quantas coisas deixamos pra trás? Qual a linha tênue entre protelar e abandonar? Vim agora para um luar sem graça, onde tudo é muita ilusão. Nem a lua do luar nasceu aqui. Eu, então: sabe-se lá.

Como os peixes deveriam sentir, temos apenas uma liberdade na vida: a de escolher onde vamos nos aprisionar. A liberdade sempre foi uma utopia, e sigo invejando os libertos que abdicam tudo. Pois não se pode ser livre e conservar alguma moral de narrador. Tudo precisa ser abdicado.

Falando em liberdade (sem querer), lembrei do meu dia de amanhã, onde vou com toda a liberdade do mundo pegar a estrada e seguir um trajeto. Veja só como as coisas sempre se equilibram, nunca há um extremo: vou pegar a estrada mas seguir um trajeto, e nisso a liberdade não se encaixa. Imagina a sensação de entrar num carro cinza-escuro e ir, sem rumo, pra onde eu sentir que devo ir. E vou pensar no que ficou pra trás? Ou o futuro seria isto – seguir em frente, sempre em frente, como um touro.

E sobre os passos que dei? Por onde andei… o que deixei pra trás e o que trouxe comigo (?). Mesmo sentindo saudade e seguindo saudoso, o futuro é brilhante: o novo. A oportunidade de criar, reinventar, ser você outra vez ou nunca mais, acertar e errar, corrigir, conhecer, procurar. Se o futuro é todo dia, apenas o passado além deste ficará estabelecido, pois não existirá lugar para o presente. Isso é triste. É triste pensar assim?

Andei notando que nestas minhas aventuras literárias e/ou narrativas eu me encontro questionando e não afirmando algo. Há sempre uma interrogação, sempre indagação e nunca (?)(viu?) nunca afirmação. Seria então uma sequência: eu pergunto e passo o meu futuro aprendendo sobre o que questiono aqui e assim dia-após-dia as perguntas são outras e nunca as mesmas. Faz sentido pra mim.

Eu vim nesta cidade aprender dentre muitas coisas a como jogar pro universo minhas questões. Aqui foi um dos meios. E assim respondo (note que nem sempre há apenas perguntas) sua confusão ao tentar entender o que eu disse anteriormente: o universo tem me respondido no meu futuro, que por vezes anda sendo o meu presente, sobre o que eu perguntei no passado. Será que o presente apareceu? Agora basta focar nele e esquecer do futuro? Mas, no futuro sou o que fui no passado ou no presente, ou serei diferente?

Preciso também pensar, agora que o trem andou todo o trilho e quase cheguei em casa (sem nem perceber o trajeto que voou sobre mim), assim, terei perguntas para ter então respostas. Acho que nunca será o inverso.

Vejo o meu destino: a estação da minha vida.

Ah não, precisarei de outro futuro. Até o dia em que o futuro deixará de existir, e tudo será novo de novo.

Igor Florim