Há em mim agora que me vejo em meio ao roteiro dos meus dias, uma necessidade de ir além. Nada sobrepondo o outro, é apenas eu. Sempre foi e sempre será. O outro deve vir pra somar e não pra depender… preencher onde já tem. Hoje venho escrever, pra lembrar que aos 12 anos de idade eu ia ao cinema todas as segundas-feiras após a escola. Das primeiras vezes eu chamei alguns amigos, que naquela altura não saíam sem seus pais. Não deixei de ir só pela falta de companhia, fui sozinho – após também convencer minha mãe, que sempre exaltava minha independência como algo positivo, naquele dia eu reparei em tudo. O ato de pagar o moto-taxi, de ligar pra dizer que cheguei bem e me sentir livre pela primeira vez após desligar a ligação. Não que tive uma infância ou adolescência de privações constantes, mas o ato de estar só, de pedir a pipoca, comprar o ingresso, comprovar a meia entrada e me cuidar trouxe para mim, (à tona) um novo olhar de mundo. E esses novos olhares chegaram muitas vezes em minha vida. Como uma sequência de começos, nunca finais. Me vi no dia de minha primeira estreia no teatro, quase naquela época, completamente desesperado e feliz. Com muito medo, e após a apresentação – que se deu com um processo de aula/ensaio de 1 ano, uma vontade enorme de fazer aquilo por toda a vida. Um êxtase, uma droga na veia, um rito de passagem pra algo que ainda não entendi, mesmo tendo apresentado umas 100 vezes depois daquele dia. É algo sobre o solo sagrado, ou talvez seja o que ouvi agora pouco: “Todas as mentiras não passam pelos Deuses do teatro… só a verdade ultrapassa.”

Fui reparando durante os anos que algumas coisas começam para serem desenvolvidas e a vida vai mandando ajuda pelo caminho. Você entende que a solidão no sentido solitário da rotina, consegue ser sempre em conjunto. Coisas inexplicáveis da matrix que pra mim conseguem fazer todo o sentido.

Eu poderia também falar dos trabalhos que tive e que me encheram a alma, ou dos amigos que foram aparecendo, dos lugares que conheci e o que despertaram em mim, ou das mudanças que a vida me trouxe, de dentro pra fora, de mim para os outros ou dos outros pra mim, mas nunca em dependência. Escutei um belo dia desses que essa necessidade de estar com outra pessoa e nunca sozinho, evitando ficar em casa ou ir à lugares sem a companhia de alguém, vem por uma questão de não se tolerar.

Às vezes o que deveria ser dito toma outros rumos, seriam estes rumos então o destino? Não o que se programa pra fazer mas sim o que se dá. Outras coisas tem me atravessado mas hoje decidi apenas ignora-las. Da pra viver assim.

Algumas coisas que acontecem ao decorrer do ano sempre se repetem em anos diferentes. Ninguém nunca o entendeu. Mas a ideia era se entender então isso também nunca o atravessou.

Igor Florim