Um dia, ainda criança, fechei os olhos e deitado na minha antiga cama, no quarto com o meu irmão (que já dormia), senti o gelado da noite entrando pela janela entreaberta e notei o quando aquele ar era diferente do ar do dia. Mais molhado, gelado, forte, evasivo. Entrava pelo pulmão de um jeito diferente. Respirei. Só respirava.

Na noite seguinte, com a janela fechada por causa de uma rápida garoa que ameaçava voltar a qualquer hora, comecei no silêncio do escuro do quarto, a ouvir. Fechei os olhos pra não desperdiçar o foco, que deveria ser inteiro a ouvir. Ouvi. Só ouvia.

Nunca mais esqueci aquele tipo de som e notei que, além do ar da noite ser diferente (soube anos depois que o nome disto é sereno), a noite tinha também seus próprios sons. Únicos e inesquecíveis. O barulho de gotas na calha de metal, eventuais gatos pelo telhado – que durante o dia, não causariam som algum. O som do vento entrando na janela e o movimento forte das árvores estalando seus membros e liberando orvalho na brisa da noite.

Só assim pra resolver, 15 anos mais adulto, fechar os olhos e… voltar a sentir diferente. Talvez eu nunca mais seja o mesmo. Fiquei a salvo. Mesmo sem mais enxergar…

Igor Florim