Abrir a porta. Num dia de meias palavras, argumentos não ditos e sensações coagidas, segui acordando. As paredes continuam frias, o inverno não largou os arrepios e os vazios não mais oferecem possibilidades. Nunca voltei a nadar.

Eram quase dez da manhã quando outras coisas mudaram. Tenho tido muita sorte ao perder certas pessoas que estiveram na minha vida. Algumas, jamais esqueci. E aquelas outras, se foram. Se foram tentando na verdade, levar tudo o que restava em mim naqueles dias.

Me armei no que eu sou, dentro de mim. Vi tudo o que era possibilidade de me oferecer ajuda e encontrei (ainda buscando aqui dentro) uma paz que ir até o peito conseguiu atravessar. Rompi barreiras pra acreditar que somos responsáveis por tudo que cativamos. Mesmo.

Ainda livre, vi que em mim restavam muitas pistas – o entendimento do solilóquio sem fim, do ritual esfumaçado dos sons, da sujeira que se acumula quando ninguém limpa e das rachaduras que só o tempo traz. E arrebata quem não se escuta.

Fiz silêncio. Este foi o momento após algo muito forte que se assentava, um rastro de falta de vigor, indiferença, piada. Respirei. E ainda em silêncio, observei tudo ir embora… a janela aberta, o sopro alado dos ventos, a solidão corroída em força. Muita força.

E com toda essa força, respirei outra vez. Minha boca se abriu sozinha e esvaeceu todo o sentimento. Abriram novos recomeços, gritaram com trompetes no estômago e caíram, lentos e litúrgicos com toda a poesia dos seus olhos. O sono que te levaria… e ainda indiferente ou acostumado decidi não parar de respirar. Nunca mais.

Me vi como vim ao mundo, outra vez vindo para ele. E olhando ao redor, notei apenas os que escolheram ficar. Todos sozinhos. Em silêncio. Assim é o mundo. Nada do que era meu foi perdido, apenas o arrependimento do silêncio dito, das palavras engolidas, do sufoco apurado. Nunca mais foi fácil e, eu nunca mais fui breve em minhas pausas.

Dinâmicas vivas que não me permitiam à experiências rasas, não mais. Era agora o momento que busquei, eu e as letras que definiriam o que se fecha aos olhos. O que grita e chora. O que se afoga pra subir mais livre, mais calmo, com mais ar. Notei que respirei outra vez. Me acostumei.

Já nem me lembro do que se foi… só consigo admirar o que com apropriação sentimental, era agora tão meu quanto o inerente, o fixo, o pé no chão de toda aquela raiz que se espalhava… que se misturava em mim. Despedida. Obrigado por me fazer lembrar. Ciclos e, nada mais. 1822.

Igor Florim