Este foi o conselho do meu rei: só mais uma vez

Só mais uma corrida matinal, só mais um almoço nutritivo, só mais um compromisso, só

E assim nunca pare

Existem fortalezas que são erguidas todos os dias há muitos dias

Essas são as mais consistentes

Para que quando o dia quase te derruba

A noite venha para te salvar

Trazendo todo o ouro do rei, todos os sonhos de seus filhos e a força do reinado inteiro

Te solidificando de dentro pra fora

Estabelecendo cuidadosamente tijolo por tijolo das enormes muralhas dos dias. Açude vazio, barro ralo e eu cansei de trabalhar. Essa obra não se finaliza

E cabe a mim termina-la

(Embora tenha quem nunca sabe quando terminar e morre por não ser infinito)

Dia após dia

Devagar e sempre soam os recados do meu rei nos meus ouvidos

Ele quer me ensurdecer

Na noite de hoje, com todo o ouro que herdei, darei um golpe no rei

Esses magnatas vão ter que me ouvir

Querem-me assim

Funcionário do mês

Engravatado

Modernizando a família real

Golpe de estado calculado desde que eu nasci

Foi tudo feito pra mim

Perfeitamente assim

Trono

Roupagem fina

Quase tudo que reluz é ouro neste lugar

Instauraremos uma democracia moderna nessa nação

Sem esses velhos impostos

Abri as portas de tudo

Soltei os animais da família real

E doei todas as milhares de roupas de cama de cetim dourado

Querem-me assim

Bondoso

Desintegrando o poder das minhas mãos

Pelo benefício alheio

Querem-me assim

Príncipe

Abdicando de tudo

E é preciso abdicar pra caminhar

Levaram até os tijolos da muralha

Já não possuo mais nada de valor em meu nome

A antiga família real me abrigou em sua singela cabana

Querem me ensinar coisas novas

Lições importantes

Libertamos velhos demônios dessa era

Você não acreditaria que isso aconteceu aqui se eu entrasse em detalhes

Mas tenho medo de um processo

Os tempos mudaram nesse lugar

O resto do mundo desconsidera esse pensamento não monárquico mas nós nos libertamos

E estamos ao léu

Sem mais nada para nos proteger

Muralha e famílias reais desestruturadas e no chão

Sobrevivendo da caridade alheia numa feia cabana

O mundo mudou. Meu rei, por favor, nos salve do que está por vir

Reassuma o controle de tudo

Novamente, assuma o controle de tudo

Lembre-se do devagar e sempre

Talvez um dia você volte à ser rei, meu rei.

Ele faleceu alguns anos depois

Tem coisa que nunca mais volta à ser como antes

E fica lá

Em suspensão no ar

Deixando de existir

Querem-me assim

Moldando a minha vida

Tomando decisões por mim

Querem me calar

Mas nunca souberam da fortaleza que eu construí depois de tudo isso. Devagar e sempre. Hoje ela já alcança os céus

Esta noite irei visitar o meu rei

Lá no alto

Talvez traze-lo de volta

Mas ser abençoado com conselhos nos meus ouvidos

Meu rei, por favor, fale tudo para mim

Não me deixe desamparado

Silêncio

Ninguém falou coisa alguma nos meus ouvidos

Meu rei tinha razão

Eu deveria ter sido o funcionário do mês e deixado tudo progredir como estava

Só nunca vi as coisas melhorarem, por isso eu errei em desacreditar no meu rei

Que frio

Desde que eu nasci tudo era sempre a mesma coisa

O rei era de cera

Igual há milênios

E ainda assim ninguém nunca desconfiou de nada

Alguém disse isso nos meus ouvidos

Não entendo?

Meu rei? É você?

Estou aqui no alto, de braços abertos, pronto pra ser amparado

Eu preciso de uma salvação.

(Daqui a pouco ele responde… acho que ele nunca sai do meu ouvido.)

Olhei para baixo

Milhares se curvavam aos pés da grande fortaleza erguida

Eles nunca viram algo assim

Mas hoje me veem aqui no alto

Mal sabem eles que vim ouvir meu rei

Essa multidão me ama

Eu vou me jogar daqui de cima

Quero encontrar meu rei

Preciso ouvi-lo de pertinho lá nos céus

E sem mais nenhum tijolo para acrescentar na construção, caiu.

Como uma pedra

Acabou tudo por ali

A multidão o transformou num deus

Subindo na muralha para tentar falar com ele

Mas essas coisas nos ouvidos eram outras coisas

Interferências negativas

A multidão, gado

E todo mundo busca o seu próprio rei

Até não ter mais para onde subir

Nunca pare

É só mais uma vez.

Igor Florim