Quem vem lá?

Estamos olhando distante mas não chegamos perto de saber quem vem

O que tem lá

Ouvindo barulhos perturbadores durante repetidas noites

Soavam como vizinhos livres

E nessa vizinhança não falamos dessas coisas

Existem lugares que são portais

Não é fácil de encontrar

Mas se você entra

Transpassa

Quando acorda já é madrugada

Escutando os anjos nos ouvidos

Cantando hinos de outros mundos

Como se tudo isso fosse normal

Foi assim que eu aprendi a cantar

Angelicalmente

Embora falhei na missão dos sons límpidos

E encontrei meus próprios gritos

Eu soo nessa noite como os vizinhos nas noites anteriores

Grunhidos libertários

Ainda fico pensando na partida do trem

Mais ninguém esteve lá

Só os que se foram

Partindo de esquecimento

Para dentro da noite

Sem muita luz para guia-los

Mas por dentro, um holofote todo

Algumas pessoas perguntaram por mim nessa mesma noite

No meio da canção

E eu não soube o que responder

Decidi ficar em silêncio

Sem grandes explicações

E foi o momento em que eu encontrei outro portal, daqueles

Parecia uma oportunidade para adentrar a escuridão destes céus

Em um horário como o de agora

Bem tarde

Já não ouço mais os anjos há muito tempo

Talvez de portal em portal, ao invés de transpassar, migrei

E conheci outras energias

Muito mais sutis

Escutando outros tipos de aviso

Que também são música pura

Fechei meu ouvido para esse tipo de som durante muito tempo

Que agora ele acoa dentro de mim

Numa vastidão toda

Ele é essa liberdade sonora que minha alma pede

Cantando livremente

O vagão inteiro deste trem cantou comigo as minhas canções

Essa noite está apenas começando

Eu não sei onde decidiremos parar

E até lá

Reme para frente, marinheiro

Essa noite será uma linda canção

Daquelas inesquecíveis e que passam gerações sendo cantadas ao luar

Dessa vez eu sou o luar

Soando meus cânticos

Compondo um soneto

O vagão do trem era você

Desgovernado

Canção pura

E eu vou dar voz para este coro.

Igor Florim